poeminhas p/matar o tempo e distrair dor de dente.

quinta-feira, agosto 19, 2010

De Tom Zé a José Augusto e vice-versa
Marcos Fabrício Lopes da Silva*

Em O sabor da vida (1999), Gilberto de Mello Kujawski faz uma distinção esclarecedora entre os conceitos de cultura e erudição, observando que tais parâmetros costumam ser erroneamente tratados pelo senso comum como sendo sinônimos. Para o filósofo, tal confusão corresponde a certa inclinação contemporânea de reduzir o saber aos dados. A erudição se concentra na capacidade humana de memorização. Sua propriedade dominante é a extensão, no sentido de que procura abranger um número cada vez maior de dados, cumulativamente. Sua intencionalidade é o dado positivo, que pode consistir num documento, na experiência sensível, na informação do fichário ou do computador. Já, a cultura se dirige ao exercício da reflexão feita individual ou coletivamente. Sua propriedade dominante é a compreensão, não só no sentido lógico, como no sentido gnoseológico. E sua intencionalidade é hermenêutica, ou seja, interpretativa, de modo a fazer do dado bruto um elemento inteligível.
Longe de desmerecê-la, a erudição é necessária, embora não suficiente ao saber completo. A cultura consiste na massa de dados empíricos fecundada, fermentada e transformada pelo raio de luz do espírito criador. Ela não é, de modo algum, auto-suficiente, pois, se alimenta da erudição como fonte material de sua alquimia sublimadora. Só a cultura integra a erudição no saber superior. A erudição não pode arrogar-se o papel da cultura, insistindo em fazer-lhe as vezes, pois seu labor, exclusivamente receptivo e cumulativo, embora indispensável, corresponde, figuradamente, ao fazer “braçal” da inteligência. A erudição é a serva da cultura. Para ilustrar tal situação, cabe o alerta pertinente trazido pelo escritor Ítalo Calvino, em Cidades invisíveis (1972): “de uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas”. Ou seja, enquanto as inúmeras atrações urbanas são a linha de interesse da operação erudita, a interpretação destes estímulos representa a elaboração cultural do cidadão.
Compreendo também que, por mecanismos de segregação social, buscou-se hegemonicamente diferenciar a cultura erudita (“alta cultura”) da cultura popular (“baixa cultura”). O poeta Diovvani Mendonça propõe uma alternativa interessante para superarmos tal divisão. Para ele, a cultura é o caminho que vai de Tom Zé a José Augusto e vice-versa. Infelizmente, há uma tendência maniqueísta e redutora de se classificar o primeiro como artista erudito e o segundo como artista popular, ignorando a capacidade de ambos produzirem cultura. Experimente saborear as canções “O amor é velho-menina”, de Tom Zé (1992), e “Meu primeiro amor”, de José Augusto (1977).
Tom Zé poetizou a respeito dos confortos e desconfortos presentes na expressão amorosa, apresentando dialeticamente suas dimensões sublimes e viscerais: “o amor é velho, velho, velho/e menina/O amor é trilha/de lençóis e culpa/medo e maravilha/O tempo a vida lida/andam pelo chão,/o amor aeroplanos/O amor zomba dos anos,/o amor anda nos tangos/no rastro dos ciganos/no vão dos oceanos/O amor é poço/onde se despejam/lixo e brilhantes:/orações, sacrifícios, traições”. Por sua vez, José Augusto trouxe à baila com muita sensibilidade o dilema entre o luto e a melancolia que compõe as saudosas lembranças do eu-poético em relação ao seu primeiro amor, com direito a encontro, reencontro e desencontro entre os dois: “Foi numa festa outro dia/Que eu te encontrei a dançar/Namoradinha de infância/Sonhos da beira do mar/Você me olhou de repente/Fingiu que tinha esquecido/E com um sorriso sem graça/Me apresentou ao marido/E o resto da noite dançou pra valer/Se teus olhos me olharam fingiram não ver/No meu canto eu fiquei entre o riso e a dor/Lembrando do primeiro amor/Pra me beijar precisava/Ficar na ponta dos pés/Eu tinha então oito anos/Mas te menti que eram dez/Lembro você orgulhosa/Da minha calça comprida/Vínhamos juntos da escola/Sem qualquer medo da vida (...)”.
Entre o ideário local e o global, também existe um descompasso acrítico que favorece a cultura universal, tido como erudita, em detrimento da cultura regional, tratada como exótica ou folclórica. Neste debate, o consagrado jogador de futebol, Cafu, apresentou a mesma competência argumentativa do renomado poeta português, Fernando Pessoa, na defesa da postura ‘glocal’ como sendo a mais indicada para que possamos “pensar globalmente e agir localmente”. Ao levantar a taça da Copa do Mundo, em 2002, o capitão Cafu utilizou a camisa da seleção brasileira, na qual escreveu “100% Jardim Irene”, para homenagear a região periférica de São Paulo onde orgulhosamente nasceu. Sentimento semelhante moveu Fernando Pessoa que, por meio do heterônimo Alberto Caeiro, construiu os seguintes versos: “o Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.
Cafu e Fernando Pessoa se saíram muito bem da armadilha erudita que pressupõe a excelência do conceito universal de cultura e propuseram como alternativa destacar e reconhecer a legitimidade cultural de todas as partes do globo. Agindo assim, eles estimularam o princípio da autonomia presente na concepção pluralista de culturas, não admitindo a opressão contida no termo cultura, expresso no singular. O futebolista e o poeta enalteceram os “princípios da fundação”, da região, da origem, do passado, do sentimento, presentes na evocação particular do bairro Jardim Irene e do rio da aldeia. Normalmente, tais valores são menosprezados pelas “ideologias da globalização” representadas por referências assimiladas mundialmente, como a Seleção Brasileira e o Rio Tejo, que se imaginam portadoras do futuro, do pragmatismo e da razão.

* Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Doutorando e mestre em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG.

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